Muito já se escreveu sobre os benefícios da memorização de poesia. Importantes autores já se debruçaram sobre o tema, e o leitor poderá encontrar vários artigos sobre o assunto na internet, com uma pesquisa rápida.
Poupo o leitor de mais uma dessas listas. Eu nada teria a acrescentar às que já existem, mas, se me dispenso de compilar mais uma lista sobre os benefícios de memorizar poesia, é por uma razão mais prática: elas não nos movem à ação. Podemos sair mais informados e voltar para nossa rotina exatamente igual, fazendo tudo sempre do mesmo jeito, com a culpa adicional de não fazer algo (puxa vida!) tão benéfico.
Por isso, decidi falar sobre um aspecto apenas – o mais eminente, na minha opinião -, na esperança de que o leitor visualize em si mesmo as possibilidades da memorização de poesia e deseje esses efeitos. Mais do que informar, quero incendiar. 🙂
O maior benefício de se memorizar poemas, eu diria, é a experiência estética. A poesia é bela. Ao nos apropriarmos de uma porção de belos poemas, algo dessa beleza se torna parte de nós, como um hormônio para nossa inteligência, nossos sentidos, transformando-se em uma ferramenta de percepção.
Aprendemos a perceber melhor com aqueles que perceberam melhor antes de nós.
De algum modo, nos tornamos aquilo que memorizamos.
Isso já foi dito de formas mais elegantes e estudadas por muitos autores. Para citar um exemplo recente, o professor e crítico literário Harold Bloom, em uma de suas últimas entrevistas, reforçou sua crença no poder humanizador da memorização de poesia, afirmando:
“Acredito que, se você possui um poema na memória, ele acaba possuindo você. Você aprende a ficar sozinho com ele, compreendendo-o em níveis cada vez mais profundos. Isso modifica você. Então, sim, sou um grande defensor da memorização.”
Agora, que ninguém pense que não é desafiador.
No mínimo, memorizar um poema nos desafia em dois sentidos:
Primeiro, a desenferrujar nossa memória, que anda falecida e não passa bem. Com um smartphone na mão, quem precisa memorizar alguma coisa? Delegamos a memória a aparelhos eletrônicos e, com isso, delegamos uma parte daquilo que nos faz humanos. (Não se abre mão de uma capacidade humana impunemente.)
Segundo, memorizar poemas desafia a nossa paciência.
Paciência de conviver com algo que não entendemos integralmente muito bem, num primeiro contato.
Paciência de verificar que esquecemos mais uma vez, que não nos lembramos, e que, ainda assim, devemos tentar de novo.
Uma paciência que tem desaparecido nesses tempos de “compreensão instantânea” de tudo. Uma paciência na qual reside a esperança de voltarmos a um estado mais normal de ser gente – sem soluções instantâneas.
Com as coisas realmente importantes, aliás, nunca é assim.
Falei demais. Agora vamos aos poemas.
Desafio de 7 dias
A proposta, aqui, é um desafio de 7 dias (que pode virar 10 ou 12 ou 15 dias, não importa).
Você vai escolher um desses poemas (ou outro que falar ao seu coração) e lê-lo diariamente para seus filhos, em três ocasiões durante o dia.
Leia com a inevitabilidade de uma chuva que cai – sem alarde. Uma chuva de palavras, de sons, e – o mais importante -, de amor. Um amor que se derrama e vai sulcando, gota a gota, a pedra dura da nossa sensibilidade embotada.
Não há regras, exceto uma: devem ser bons poemas.
Deixo, abaixo, uma pequena seleção que você pode utilizar.
Depois de você (você, não seu filho) ter memorizado o poema, faça uma brincadeira: enquanto estiver com seus filhos no carro, ou no mercado, ou na fila, ou na recepção do médico, diga o versinho e deixe que ele o complete.
Existe um prazer na memorização. Uma satisfação de possuir algo só seu. Mas isso só se experimenta fazendo.
Esse é o desafio, que eu, também, acabei de aceitar.
Vamos juntos.
Uma pequena seleção de poemas
Escolha aquele que calar mais fundo em seu coração.
São Francisco
Vinicius de Moraes
Lá vai São Francisco
pelo caminho
de pé descalço
tão pobrezinho
dormindo à noite
junto ao moinho
bebendo a água
do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
de pé no chão
levando nada
no seu surrão
dizendo ao vento
bom dia, amigo,
dizendo ao fogo
saúde, irmão.
Lá vai São Francisco
pelo caminho
levando ao colo
Jesuscristinho
fazendo festa
no menininho
contando histórias
pros passarinhos.
O dia e a noite
Celina Ferreira
No meio das trevas
a mão do Senhor
ergueu-se ordenando
com grande vigor:
– “Que a luz seja feita!”
E o nada morria.
Da treva desfeita
vem, lúcido, o dia.
E vem precedido
de um leve palor.
Nas tintas mais belas
tirou sua cor.
Das trevas do nada
sobradas do dia
formou Deus a noite
em sombra e poesia.
Sindbad, o marujo
Edelweiss Barcellos Mello
Onde, marinheiro?
Onde, trovador?
Onde, viageiro
de Nosso Senhor?
Vou ser o marujo
Sindbad-marinheiro.
Vou ver outras terras,
correr mundo inteiro.
Quedê o dinheiro
pra ser viajor?
Quedê a moeda
pra tanto esplendor?
Dinheiro de sol,
moeda de lua,
brilhando perdidos
num canto de rua,
me levam por mares,
mostram maravilhas,
tesouros ocultos,
ignotas ilhas…
Não quero outra vida
nem quero outro amor
que ser marinheiro
de Nosso Senhor!
Nascimento
(Em louvor de Jesus Cristo)
Augusto Frederico Schmidt
Vamos ver a Estrela!
Sairemos pelas estradas, cantando,
Sairemos de mãos dadas,
E acordaremos as brancas e tímidas ovelhas.
Iremos surpreendê-Lo, Pequenino e Simples.
Sua Inocência Iluminará os caminhos felizes, dormindo.
Vamos ver a Estrela!
A canção dos tamanquinhos
Cecília Meireles
Troc… troc… troc… troc…
ligeirinhos, ligeirinhos,
troc… troc… troc… troc…
vão cantando os tamanquinhos…
Madrugada. Troc… troc…
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, Troc… troc…
vão cantando os tamanquinhos…
Chove. Troc… troc… troc…
no silêncio dos caminhos
alagados, troc… troc…
vão cantando os tamanquinhos…
E até mesmo, troc… troc…
os que têm sedas e arminhos,
sonham, troc… troc… troc…
com seu par de tamanquinhos…
A gente nunca está só
Adelmar Tavares
A gente nunca está só.
Ou se está com uma saudade
De um sonho desfeito em pó;
Ou se está com uma esperança
De nova felicidade
No coração que não cansa…
Sempre uma sombra com a gente,
Constantemente,
Uma sombra… Boa… ou má…
Só é que nunca se está.
O patinho
Francisca Júlia
O pintainho do pato,
galante, amarelo e novo,
mal saiu da casca do ovo,
busca as águas do regato.
Todo ele, tão lindo e louro,
enquanto nas águas bóia,
tem a graça de uma jóia
feita em ouro.
As virtudes
Alphonsus de Guimaraens
São três irmãs, são três flores,
feitas de raios de luz.
Plantou-as, entre fulgores,
a mão santa de Jesus.
Uma é a Fé, outra, a Esperança,
vem a Caridade após…
Feliz de quem as alcança!
Vivem sempre junto a nós.
São belas como princesas.
A Caridade é talvez,
neste mundo de incertezas,
a mais formosa das três.
O anjo
Susi de Queiroz, autora de “O gatinho fujão” (Ed. João & Maria)
Rabisco um anjo no papel rasgado
e o vento sopra pela porta afora
e leva a folha sem qualquer cuidado.
Saio correndo no jardim agora,
mas vai-se embora: voa o anjo alado,
e a folha plana sobre o pé de amora.
A boneca
Olavo Bilac
Deixando a bola e a peteca
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.
Dizia a primeira: “É minha!”
— “É minha!” a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.
Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.
E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca…